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“Bolsonaro acha que os ambientalistas são comunistas”, diz Alfredo Sirkis

Diretor Executivo do Centro Brasil no Clima vê presidente como uma barreira no cumprimento da meta de desmatamento ilegal zero até 2030




São Paulo — O Brasil tem a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2030. Como atingir um resultado eficiente, porém, é uma resposta que causa inúmeros debates e, nesta terça, 03, foi tema de um painel na Conferência Ethos 360º.

Nos últimos 30 anos, o país perdeu 71 milhões de hectares de vegetação nativa – área maior que a ocupada pela Amazônia – em decorrência de desmatamento e queimadas, entre outros fatores, apontam dados do MapBiomas.

Com pouco menos de 10 anos para a mudança desse cenário há agravamentos políticos, econômicos e sociais. E, para reverter o desmatamento, é preciso auxílio do governo federal, mas há empecilhos. “Jair Bolsonaro acha que os ambientalistas são comunistas. Quando ele proíbe o Ibama de inutilizar uma motosserra a fiscalização e o fim do desmatamento se tornam extremamente difíceis”, afirma Alfredo Sirkis, diretor executivo do Centro Brasil no Clima.

Outra barreira está no afastamento do Ministério do Meio Ambiente junto ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Para Claudio Almeida, coordenador do Programa Amazônia do INPE, o estado brasileiro não pode enfraquecer o suporte à fiscalização do desmatamento ilegal e não pode conter viés político no monitoramento. “Se for perdida a capacidade de fiscalizar será permitido que mais instituições atuem ilegalmente”, diz.

Apesar das dificuldades, há saídas. Uma forma de auxiliar o fim do desmatamento ilegal é capacitar e remunerar as comunidades locais amazônicas. “Ao invés de ter uma serraria, uma família pode ter uma um trabalho remunerado de orientação à comunidade local”, diz Sirkis. Seria assim possível pagar a comunidade pelos perímetros preservados e, posteriormente, pensar em outros geradores de renda menos emergenciais.

A geração de crédito para a agricultura familiar local é também um fator determinante. Grande parte da agricultura brasileira é familiar e pode atuar no modelo de baixo carbono, mas precisam de subsídios.”No estado do Amazonas a meta do Banco do Brasil está na soja e no gado, o que não faz sentido para aquele local”, diz Victor Salviati, coordenador de projetos especiais da Fundação Amazonas Sustentável.

A divisão fundiária da Amazônia faz com que 50 milhões hectares (equivalente a 50 milhões de campos de futebol) sejam considerados áreas não-destinadas, ou seja, sem proprietário determinado. Nesse cenário, áreas não estão desmatadas por questões logística, mas isso é uma questão de tempo. “Nesse ambiente lideranças indígenas ficam destabilizadas e precisam lutar não só com madeireiros ilegais, como com atuantes da Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Assim, o desmatamento se torna também uma questão de segurança nacional”, afirma Salviati.

No complexo cenário, o coordenador do Programa Amazônia do INPE, Claudio Almeida, convida a sociedade civil para acompanhar os dados produzidos pelo órgão a fim de gerar maior transparência e disseminação de informações em prol de uma meta comum: salvar a floresta.


Reportagem publicada originalmente no site EXAME, acesse aqui.

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